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Adaptação da criança adotiva depende da acolhida familiar PDF Imprimir E-mail

O psicólogo Mário Lázaro Camargo, autor do livro “Adoção Tardia: Mitos, Medos e Expectativas”, afirma que os medos que levam as famílias a evitar ou mesmo rejeitar a adoção de crianças acima de 2 anos estão enraizados numa cultura ainda entranhada pelo preconceito e estereótipo da criança adotiva.

A maioria dos casais procura a adoção motivada por esterilidade, de acordo com Camargo. “No passado a sociedade valorizou demais a paternidade e a maternidade biológica, tornando um demérito para o homem e a mulher não poder gerar seus próprios filhos”, explica. “Em função disto, muitos recorriam à adoção mas a mantinham em segredo”, completa.

Esta é uma prática que ainda hoje persiste, segundo o psicólogo. Assim, para aqueles que optam por não revelar que o filho não foi gerado no seio da família, adotar uma criança mais velha torna-se um empecilho. “Hoje isto ainda acontece, porque a nossa cultura alimenta uma série de mitos e expectativas equivocadas”, ressalta Camargo.

O bebê se adapta com maior facilidade; a criança que passou um período maior em instituições apresenta desvio de caráter; as crianças mais velhas, em função de sua trajetória, são agressivas, apresentam distanciamento afetivo. Estes são alguns mitos que assombram a adoção tardia e que, segundo Camargo, “tornam as famílias com potencial para adotar muito temerosas”.

Nenhum destes medos, de acordo com o psicólogo, comprovam-se na realidade. “A adaptação da criança à família depende muito mais do acolhimento com que esta criança é recebida e das relações afetivas que se estabelecem do que da idade com que ela é inserida na família”, explica. “As possibilidades de a criança adotada tardiamente desenvolver o sentimento de apego são as mesmas de uma criança gerada biologicamente.”

Quanto ao medo do comportamento agressivo e rebelde, Camargo afirma que também é um equívoco. “Isto também não se comprova, não podemos dizer que toda criança adotada tem este padrão de comportamento, da mesma maneira como os filhos biológicos também podem se tornar agressivos.”

O psicólogo salienta que o trabalho de pesquisadores e estudiosos do tema tem sido no sentido de transformação deste olhar. “Temos de mudar essa visão de que o que determina a constituição do sujeito é a carga genética. É preciso ver o sujeito, no caso a criança, como um ser biopsicossocial. Somos constituídos de uma dimensão biológica, mas também dotados de uma dimensão psíquica, de uma subjetividade e estamos inseridos num contexto social. Nós nos constituímos através desta combinação biológica, psicológica e social”, sintetiza Camargo.

Fonte: Jornal da cidade de Bauru