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Lelê Lorota e a bebeteca PDF Imprimir E-mail
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O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Menos a minha professora, que esses dias me chamou de “Lelê Lorota” e me deu zero num exercício. E tudo por causa de uma amiga da minha mãe que é mãe de um filho que não é dela.

Xi, ficou estranho. Vou explicar direito.

É que lá na escola a professora falou que a gente tinha que fazer a nossa árvore ginecológica, quer dizer, geológica, quer dizer, genealógica. Essa palavra é o maior difícil.

Essa tal de árvore genealógica é uma árvore onde a gente coloca o nome da gente, e em cima coloca o nome dos pais da gente, depois os dos pais dos pais da gente, depois os dos pais dos pais dos pais da gente, depois os dos pais dos pais dos pais dos pais da gente e vai assim até chegar no Adão e na Eva.

Eu vou colocar uma árvore dessa aqui embaixo, e aí quem quiser pode fazer a sua.


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Bom, eu estava desenhando a minha árvore para colocar os nomes quando a amiga da minha mãe, que se chama Solange, chegou lá em casa.
Só que ela não chegou sozinha. Chegou com um menino de três anos chamado Miguel.

Eu achei isso o maior estranho, porque eu nunca vi a Solange barriguda e toda mulher antes de ter filho fica bem barriguda que nem o seu Zé Paulo lá da padaria.

E tinha outra coisa estranha: a Solange e o marido dela, o Paulo, são bem branquinhos. Mas o Miguel era bem pretinho.

Aí eu fiquei pensando: Será que a Solange comeu muito chocolate quando ele estava dentro dela?

Para entender essas duas estranhices, eu peguei os meus carrinhos e fiquei brincando perto da minha mãe e da Solange, só para escutar o que elas estavam falando. Eu acho legal ouvir a conversa dos outros. Eu sempre faço isso e disfarço o maior bem.


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Bom, a conversa foi mais ou menos assim:

A Solange disse: “Pois é, demorou mas o Miguelzinho chegou.”

E a minha mãe perguntou: “E vocês se adaptaram bem?”

“Muito. Sabe que eu tenho a impressão de eu nasci para que ele existisse?”

“Ser mãe é isso. E já está tudo certo com a papelada?”

“Não, ainda não. Ainda tem algumas coisas para fazer. E isso toma um tempão!  Mas vai dar tudo certo.”

“E como é que você escolheu ele?”

"Ops!, que negócio é esse de ‘escolheu’?", eu pensei. A gente escolhe é livro na biblioteca. Será que existe uma biblioteca de criança, uma bebeteca?” Então eu fiquei prestando mais atenção ainda. Acho até que a minha orelha fez que nem orelha de cachorro e ficou em pé

A Solange respondeu: “Olha, o processo demorou bastante. Mas um dia a assistente social ligou dizendo que tinha um menino, só que era mais velho do que eu queria. Ele já tinha três anos e eu tinha pedido um de no máximo dois anos.”

“E como é que foi quando você viu ele pela primeira vez?”, a minha mãe perguntou.

“Ah, foi amor à primeira vista. Tinha uma moça lendo um livro para as crianças e ele era o que prestava mais atenção. Depois a gente não conseguiu parar de pensar nele. Para você ter uma idéia, teve um dia que o Paulo nem lembrou que tinha jogo de futebol. E olha que ele não fez isso nem no dia do nosso casamento...”

“Os homens são todos iguais...” disse a minha mãe meio resmungando. Eu fiquei com medo de que ela começasse a reclamar do meu pai e a Solange parasse de contar a história, mas a Solange continuou:

“A gente foi visitando o Miguel todos os dias e, no final de semana, levou ele para casa.”

Aí eu pensei: “Como assim, levou pro final de semana? Ela fez um teste com o filho?!”. Nessa hora eu não aguentei e perguntei: “Eu também fui comprado numa bebeteca?”

“Bebeteca?”, disseram as duas juntas.

“É, bebeteca, o lugar onde vendem criança”, eu expliquei.


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Então as duas começaram a rir muito, como se estivessem dizendo “Tadinho do Lelê, é tão criança e tão burrinho...”. Isso me deu a maior raiva, mas eu não falei nada porque eu queria entender a história.

Aí a Solange disse: “Não é bebeteca, é orfanato. E lá não se vende bebê. É onde eles ficam até serem adotados.”

“O Miguel morava lá?”, eu perguntei.

“Morava”, disse a Solange, “ele e um monte de crianças.”

“Deve ser a maior farra!”, eu disse.

A minha mãe fez cara séria e falou: “Essas crianças não moram lá porque querem, Lelê. É que elas não têm quem cuide delas. O pior é que existem umas oitenta mil crianças assim no Brasil.”

E a Solange disse: “Elas querem ter pais, só que tem que esperar que apareça alguém querendo adotar uma criança.”

“Foi isso que você fez?”

“Foi. Eu não podia ter filhos, então eu adotei o Miguel. Ele não é filho de barriga mas é filho de coração.”

Eu comecei a pensar que esse negócio de adotar é legal, porque a mãe da gente não escolhe a gente, mas a Solange escolheu o Miguel, e por isso ela deve gostar mais dele do que a minha mãe gosta de mim. Aí eu fiquei preocupado e perguntei:

“Mãe, você queria ter eu?”

“Claro que queria, Lelê!”

“Mas você não me visitou.”

“Não.”

“E o pai não perdeu nenhum jogo de futebol por minha causa.”

“Não.”

“E ninguém me escolheu?”

“Não. Você veio e pronto.”

Aí eu disse: “Droga! Eu queria ter sido adotado!”, e fui para o meu quarto.

E aí de raiva eu não fiz a minha árvore genealógica.

Quando a professora perguntou por que que eu não tinha feito, eu peguei e disse que era porque eu tinha sido adotado.

Aí ela falou: “Péssima desculpa, rapazinho! Eu conheço a sua mãe e lembro muito bem quando ela estava grávida de você. Nota zero, Lelê Lorota.”
Zero! É isso que dá a gente não ser adotado.

Fonte: Blog do Lele http://blogdolele.blog.uol.com.br