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A Busca das Origens: Revelação e Segredo PDF Imprimir E-mail
Escrito por Maria Luiza de Assis Moura Ghirardi*   

1. A Importância da Busca das Origens
 
Nossa conversa hoje vai tratar sobre o conhecimento das origens. O conhecimento, como sabemos, é uma possibilidade exclusiva dos seres humanos. Os animais, embora semelhantes a nós em alguma medida, não desenvolvem a habilidade ligada ao conhecer. O vídeo que acabei de apresentar mostra como as coisas no mundo animal ocorrem de modo mais natural e mais instintivo: apesar das imensas diferenças existentes entre uma tartaruga e um hipopótamo, a convivência e o laço que une os dois podem vir a ser bastante satisfatórios.  Basta o amor, diz o vídeo. E quantas vezes ouvimos que a adoção é um ato de amor. É um ato de muito amor sim; quem tem experiência no assunto sabe que o amor é fundamental para que a adoção ocorra dentro de um ambiente favorecedor das potencialidades de uma criança. Mas só ele, não basta. Para que um laço entre duas pessoas se estabeleça e perdure é necessário algo mais. Aliás, é assim que ocorre em todas as nossas relações afetivas, quer se trate de adoção ou não. Isso porque diferentemente dos animais o ser humano é mais complexo e, portanto, muito complicado!!

A pesquisa sobre as próprias origens é inerente à experiência humana. Posso dizer que é uma NECESSIDADE, e vou explicar por quê. Buscar as origens é conhecer algo acerca de si mesmo. Temos necessidade de conhecer sobre nós mesmos e é essa uma condição importantíssima na constituição de nosso mundo interior, nossa subjetividade. Conhecimento e curiosidade é  parte fundamental do desenvolvimento de toda criança. A criança em geral inaugura a pesquisa sobre as origens a partir da curiosidade sobre os bebês. Perguntas do tipo: como nasci?, Como entrei na sua barriga?, Como nascem os bebês? São exemplos de questões que surgem num dado momento da vida da criança, em geral em torno dos 3 anos de idade; essas perguntas aparecem devido à  necessidade que ela tem de dar sentido e significado à sua pequena existência.

Diferentemente dos animais, todos nós humanos temos necessidade de montar uma história pessoal acerca de nossa inserção no mundo. Nossa história pessoal na verdade não é uma história dos fatos ocorridos. Ela é uma criação, uma montagem, uma “teoria” por assim dizer, que formulamos como se fosse um mito e que tem como objetivo dar significado à nossa inserção no mundo. “Nascemos de quem, quando, onde, quem são os nossos ancestrais?”. O conhecimento sobre as origens está ligado à capacidade de dar sentido a um “quebra-cabeça’ que situará o Lugar que ocupamos na vida; é um saber sobre quem somos e qual a importância que temos para aqueles que nos são muito queridos. Em outras palavras, que LUGAR nós ocupamos no desejo desses Outros.  Lugar na vida de alguém. Lugar na mente de alguém.

Nascer é se ver atravessado pelas questões da vida e pelo mistério da existência. É CONHECER a posição humana e as condições necessárias à instalação de si no mundo com outros. Quando o ser humano se vê diante da impossibilidade de entrar em contato com sua história pessoal e com suas origens, é levado a um sofrimento sem contorno e, portanto vive uma experiência desesperadora. Quando não temos CONHECIMENTO em relação às nossas origens, não conseguimos montar as peças que podem nos dar as pistas necessárias para saber Quem Somos. Perdemos a experiência de humanização; não conseguiremos montar projetos de vida e de futuro. E muito provavelmente não conseguiremos amar...

A arte e a literatura trazem muitos exemplos a respeito deste tema. Na semana passada, revi o maravilhoso filme “Cinema Paradiso”. Quem não viu, vale a pena ver: o protagonista se desliga abruptamente de suas origens e durante décadas não sabe nada sobre sua família e sua cidade natal. Ele migra no sentido de buscar sucesso profissional. Consegue ser muito famoso, mas depois saberemos que, no entanto, não conseguiu estabelecer nenhuma ligação afetiva realmente significativa em sua vida.

Um outro exemplo é o de Paulinho da Viola: em um belo documentário recente sobre sua vida  e sobre o tempo, ele afirma: “...não sou eu que vivo no passado, mas é o passado que vive em mim”. Há sempre um passado que habita em nós e é no contato com um outro humano, que a verdade sobre si mesmo pode aparecer. É sempre esse outro, representado por pai e mãe, ou substitutos, que podem nos auxiliar, por meio do “empréstimo de sua memória”, [1]o resgate dos significados daquilo que é originário em nossas vidas. A memória recuperada do originário é o que nos possibilitará  transformar o passado em futuro e é ela que nos viabiliza aquisições importantíssimas como por exemplo: ter esperança, criatividade, lembranças e gratidão.

Essa é então uma questão crucial para todos nós, sobretudo para a criança. Podemos já antever que para a criança que é adotiva a pesquisa sobre as origens vai apresentar contornos específicos, devido às características de sua história. É sobre essa especificidade que conversarei hoje com vocês. Meu objetivo é refletirmos sobre questões que muito preocupam a família adotiva e que a leva frequentemente a solicitar ajuda de profissionais que trabalham com a adoção. Não acredito na eficácia das chaves mágicas quando se trata de assuntos que se referem à magnitude do humano e que, portanto são tão delicados. O mundo contemporâneo sofre de um excesso de técnica e eclipsa, a meu ver, a ética. Prefiro a idéia de que hoje conversamos sobre ética e adoção, por meio de um recorte, que é a importância das origens na constituição da subjetividade humana.

O tema da Revelação é um dos aspectos mais intimamente ligado ao afetivo em todo o campo da adoção. Para saber como lidar com ela não há fórmulas; só  posso expressar pontos de vista, contar experiências, transmitir vivências, para que cada um de vocês possa tirar suas próprias conclusões que lhes sirvam de orientações para as respostas que darão. Assim farei.