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Rejeitados PDF Imprimir E-mail

Sem família biológica, as crianças que moram em abrigos vivem à espera de uma segunda chance, a adoção. Mas o sonho vira pesadelo quando são devolvidas.

Minha mãe fugiu de casa com meus irmãos e meu pai foi atrás deles. Fiquei sozinho lá em Roraima. Acabou a comida. Um vizinho me levou com ele para uma fazenda. A dona me adotou, mas acabou me devolvendo. Depois apareceu um advogado, e eu fiquei feliz por ter uma nova família. Mas eles me devolveram também. Meu maior desejo é descobrir por quê. Eu tentei ser legal.''
J.R.R., 13 anos

Lúcia ficou três dias embaixo da cama, muda. Paulo passou um ano esperando que a mãe adotiva voltasse para buscá-lo. Ana caiu na prostituição. Kauã mergulhou nas drogas. Crianças de abrigos - órfãs, abandonadas ou retiradas dos pais biológicos pela Justiça -, Lúcia, Paulo, Ana e Kauã se encheram de esperança ao ganhar uma nova família, adotiva. Viram o sonho desmoronar em seguida, ao ser devolvidos às creches e aos orfanatos, sem aviso ou com uma explicação capenga. 'Não sei por que isso aconteceu. Acho que eu fui legal com todo mundo', diz J.R.R., inconformado com seu terceiro abandono.

A maioria das adoções realizadas no Brasil tem final feliz, e talvez por isso a sociedade ignore o drama daqueles que são exceção - os rejeitados. Não se sabe quantos eles são, uma vez que não se conhece sequer o número de crianças disponíveis para adoção no país. Falta um cadastro nacional que interligue as informações de cada comarca e das Comissões Estaduais Judiciárias de Adoção (Cejas). Além disso, a Justiça não reconhece o conceito de devolução. Perante a lei, toda adoção é irreversível, e devolver um filho adotivo é crime equivalente a abandonar um filho biológico. Mas existe uma brecha para que isso aconteça, durante o chamado período de convivência, quando os candidatos a pais têm apenas a guarda provisória da criança - essa fase pode durar mais de um ano.

Outras tantas devoluções acontecem no mundo das chamadas 'adoções informais', que representam metade de todas as que ocorrem no país, segundo pesquisa da psicóloga Lídia Weber, da Universidade Federal do Paraná. Nesse grupo estão crianças registradas por outras pessoas quando eram ainda recém-nascidas (o que se conhece por 'adoção à brasileira') e aquelas criadas por parentes próximos ou conhecidos que nunca regularizaram a papelada (chamadas 'adoções de fato').

Quando essas crianças são devolvidas, a Justiça as acolhe, mas não mantém registro. Sem casa, sem família e sem sobrenome, elas entram num rol nacional nada seleto: o dos cerca de 110 mil menores abrigados em instituições e considerados 'inadequados para adoção'. Os motivos mais freqüentes são documentação irregular ou idade - é praticamente impossível conseguir um pai e uma mãe para quem tem mais de 3 anos.

Traumatizadas por uma sucessão de rejeições, as crianças não contam com nenhuma estrutura que lhes dê suporte. 'O abandono é uma violência psicológica que geralmente deixa seqüelas incuráveis', adverte Sueli Damergian, doutora em psicologia. As crianças ficam com a auto-estima esmagada, com dificuldade de estabelecer vínculos e socializar-se. Podem ficar revoltadas, agressivas e desenvolver distúrbios mais graves. Ao perder o último fio de esperança, perdem também o apego a quaisquer valores. Calcula-se que um terço da população carcerária brasileira venha de abrigos, orfanatos e internatos.

Renato Macedo Santicholi, de São Caetano, em São Paulo, tem 20 anos e já foi preso duas vezes. Com 3 dias de vida, saiu do hospital com a família adotiva. Aos 10 anos descobriu por acaso que não era filho biológico do casal e ficou revoltado. A mãe morreu, o pai casou de novo e teve um filho. E tentou devolver Renato pelo menos três vezes. Renato foi para o crime. 'Depois desse outro filho, meu pai não teve mais amor por mim. Eu não existo', desabafa Renato, que tem um bebê de quase 2 anos. 'Vou fazer tudo pelo meu filho. Nem meu pior inimigo merece passar o que eu passei.'

Eu tinha 20 dias quando minha mãe me deu para um desconhecido num ônibus. Fui parar numa instituição. Fui adotada quando era pequena, mas depois me devolveram. Depois fui adotada pelo dono de um bar, que era casado com uma prostituta. Eu tinha de acordar muito cedo, limpar o bar, arrumar a casa. E tinha de ficar esperta. Ele me espionava quando eu tomava banho. Eu vivia em pânico, apanhava muito. Há um ano fugi e fui procurar ajuda no Juizado, não podia mais ficar naquela situação. Acho que não dá para ficar calada agüentando tudo. A gente tem de denunciar, falar com a psicóloga do Juizado, contar a verdade.''
E.S.M., 16 anos

A juíza Maria Isabel de Matos Rocha, de Campo Grande, explica que a devolução é conseqüência de uma adoção mal construída desde o início. É preciso prevenir, preparando melhor crianças e candidatos a pais. Os especialistas também assinalam a importância do acompanhamento pós-adoção. As crises familiares costumam aflorar quando a criança entra em idade escolar ou na pré-adolescência, dois momentos em que questiona os pais e dá mostras de sua individualidade. 'Um candidato a pai bem preparado não devolve uma criança como se fosse uma lata de leite no supermercado', reforça o juiz Luís Carlos de Barros Figueiredo, do Recife. Autor de um livro sobre adoção internacional, Barros criou o Infoadote, programa de cadastramento e seleção de candidatos aplicado em 14 capitais.

Para tentar compensar as falhas do sistema de adoção, o que existe são entidades independentes e organizações não-governamentais. Uma das iniciativas mais bem-sucedidas são os mais de 70 Grupos de Apoio à Adoção (GAAs) espalhados pelo país. 'Há particularidades na filiação adotiva, questões em torno da origem e da carga genética da criança, os traços de personalidade que ela herdou e o questionamento que fará sobre sua história', alerta a psicóloga Maria Teresa Gimenez, do GAA de Rio Claro, em São Paulo. A psicanalista Gina Levinzon, da Universidade de São Paulo (USP), explica que é comum a criança testar os pais adotivos para saber até que ponto é desejada. 'Um segundo abandono confirma que ninguém a quer, que ela não pode ser ela mesma e que não deve confiar em ninguém.'