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Futuro de incertezas PDF Imprimir E-mail

"Eles querem que a gente seja homem para enfrentar a vida, mas a gente precisa de uma orientação. Nós somos homens, mas o mundo lá fora é esquisito, é estranho. Eles querem comparar a gente aos adolescentes de fora, mas os adolescentes de fora têm o acompanhamento de uma mãe, um pai, um tio, para dar conselhos. Eu não tenho ninguém. Só meus irmãos mais novos. Morava eu e meu pai. Nunca soube da minha mãe. Meu pai bebia. Eu não perguntava da minha mãe porque ele já chegava travado, batendo. Também eu tinha cinco anos, meu irmão tinha quatro. Quando fiz 14 anos, eu quis saber da minha mãe, mas depois não liguei mais não. Os adolescentes lá de fora têm uma ajuda do pai, da mãe. Mesmo se eles moram assim num apartamento só de adolescentes, eles têm o acompanhamento do pai. Já nós não. Se a gente sair daqui, cada um é por cada um. Digamos que eu tô numa casa, morando sozinho, eu não posso pedir a OAF(Organização de Auxílio Fraterno) um conselho, eu vou estar sozinho. Eu tenho medo do mundo lá fora é de eu ficar revoltado e fazer o que não devo. Quando eu era menor, eu apanhava muito, falava para o adulto que eu tinha apanhado e ninguém acreditava em mim. Isso me deixava revoltado. O cara me batia e dizia que eu tinha xingado a mãe dele e eu ainda apanhava de novo. Eu ficava revoltado, só depois que eu fui entender que isso é normal em ambiente de orfanato. Isso é uma rotina de orfanato. Ninguém tem mãe e está todo mundo xingando a mãe do outro. É que esse assunto, de mãe, é o ponto mais sensível de todo orfanato. Um sonho que eu tenho desde pequeno é ser músico. Antes eu não tinha oportunidade de aprender porque o processo aqui dentro é muito fechado. A pessoa que cresce dentro de orfanato tem dificuldade de aprender as coisas do mundo lá de fora. "

Carlos Alberto, 17 anos, Organização de Auxílio Fraterno, Salvador

Esta história não tem fim. Os órfãos do Brasil são meninos e meninas que não sabem o que vão ser quando crescer. Alguns como a pernambucana Adriana já repetem o passado dos pais e abandonam os filhos. Outros como a gaúcha Aparecida juram que não deixarão herdeiros. Não querem o risco de ver a cria currada pelo pai. Muitos percorrerão o calvário do paulista Roberto, que trocou o abrigo pela cadeia. Todos partirão para um futuro de incertezas com as cicatrizes da infância perdida numa casa de mentira.

‘‘Não tenho nada. Tenho só minha roupa. Não sei o que fazer quando sair daqui’’, lamenta Adriana, a garota de 17 anos, que largada pela mãe, virou empregada doméstica da mulher que prometia adotá-la, fugiu e passou a adolescência em abrigos pernambucanos. Engravidou entre as aulas na escola e as tardes vazias. Em outubro pariu o segundo filho e pela segunda vez entregou para uma desconhecida. ‘‘Não tinha futuro ficar comigo’’.

A pernambucana tem a mesma idade do baiano Carlos Alberto. Estão separados por abrigos muito diferentes, mas unidos pelo medo daquilo que chamam de o mundo lá fora. ‘‘A gente passou estes anos todos aqui e agora tem que sair. Sair como ? Para onde ? Não tenho nenhum parente. Nada. Só tenho a OAF’’, preocupa-se o rapaz criado na Organização do Auxílio Fraterno, a OAF, em Salvador, onde passou 4.745 noites. Em 13 anos, nunca dormiu fora.

Abrigos acolhem crianças e adolescentes até os 18 anos. E depois? Depois depende da porta de entrada. Nos abrigos modernos que apostam no afeto, na individualidade e na preparação da criança para sair da instituição há alguma esperança. É o caso da OAF.

Carlos vai ganhar uma casa. Deve repartir com outros ex-internos. Todos têm dinheiro na poupança. ‘‘Mas ficamos inseguros mesmo assim’’, diz o rapaz.

Cresceu em apartamentos pequenos, com armários abertos, roupas individuais, crianças grandes misturadas com pequenas. Garotos com garotas.
Os casos de gravidez são raros. Três em 13 anos. Já no abrigo de Adriana, onde os adolescentes estão separados por sexo e por pavilhões, cinco meninas engravidaram no ano passado. O anticoncepcional baiano são os laços de fraternidade: as crianças crescem como irmãs ‘‘Não existe uma família para crianças pequenas e outra para grandes. Uma para meninos e outra meninas’’, ensina padre Piazza, o diretor da OAF.

Ele não dá expediente no abrigo. Mora lá. Vive cheio de menino no colo. ‘‘Essas crianças chegam com vertigem. Têm medo da altura do colo, jamais foram carregadas no colo. A primeira preparação para o futuro é pegar no colo, é dar afeto’’.

Quando faltam colo e afeto o destino provável de quem sai dos abrigos é o crime. Dissertação de mestrado do pedagogo Roberto da Silva mostra que 36,5% dos meninos e meninas que entraram nos orfanatos da velha Funabem em São Paulo entre 1958 e 1964 terminaram na cadeia.

Roberto fez também a investigação inversa. Para o doutorado na Universidade de São Paulo (USP), em 1999, estudou os presos que cumpriam pena há mais de dez anos no Complexo do Carandiru. Concluiu que 56,9% deles passaram por abrigos quando crianças. ‘‘Isso significa que o modelo Funabem fracassou’’, resume Roberto.

A Funabem da ditadura ergueu orfanatos com uma mesma missão: afastar crianças de pais nocivos e transformá-las em cidadãos brasileiros. ‘‘Os agentes da mudança eram os policiais militares, versão da época, das atuais educadoras’’, diz Roberto.

O pesquisador paulista entende do que fala. É autor e personagem de seu estudo. Abandonado pela mãe aos cinco anos de idade, Roberto viveu onze anos na Febem paulista. Saiu, caiu no crime e terminou no Carandiru onde ficou preso por seis anos. Ali reencontrou os colegas de orfanato e decidiu dar uma guinada. Fez faculdade, se formou e virou estudioso do crime.

“Desde os 11 eu tava no tráfico. Eu vendia maconha e pó na favela. Meu pai morreu de tiro. No tráfico eu era vapor. Eu vendia. Andava armado. Passei por mais de dez abrigos. Sempre fugia, voltava para o crime. Aqui é diferente. É uma família. Nos outros o educador mudava de plantão, não tinha aquele objetivo de cuidar da pessoa, de gostar da pessoa. Aqui eu sinto que gostam. Eles cuidam com amor, não estão apenas cumprindo o trabalho, dando comida, cuidando para não fugir e pronto. Daqui eu não fugi.”
Tiago, 17 anos

O ex-traficante só aquietou no Associação Santa Clara, um sítio em Vargem Grande, bairro da zona oeste do Rio a 15 minutos da praia do Recreio, num terreno aos pés da Serra do Mar.

Tiago está ali há três anos. Virou atleta, corredor. ‘‘Aqui descobriram meu talento de fundista quando contei que vivia fugindo da polícia’’, conta o garoto, medalha de bronze no último campeonato estadual.

O Santa Clara nem parece um abrigo. Não há portões nem segurança. Da janela do quarto, um homem gorducho, esparramado numa poltrona não se levanta para receber as visitas. Com as mãos, manda entrar. Está com a mulher e um bando de meninos. Ela é Eliete, pedagoga e professora de literatura. Ele é Cícero, economista, ex-diretor do INAMPS nos anos 80.

Largaram tudo. Hoje cuidam de 87 crianças. Não tem conforto nem limpeza. Os quartos são bagunçados. Não há psicólogos, pediatras ou assistentes sociais, mas as crianças gargalham. ‘‘Numa casa não tem nada disso. Quando alguém precisa procura fora”, explica Cícero.

O modelo tem dado certo. ‘‘Quase 400 crianças passaram por aqui em quase 20 anos. Só 12 caíram no crime’’, conta Eliete. Sabe a história de cada menino. Chama de filhos. Eles a chamam de mãe. Têm planos de futuro. ‘‘Ter planos alivia a tristeza’’, diz Euclides, de 16 anos, um mineiro que chegou ao Rio, aos dez, escondido na carroceria de um caminhão. ‘‘Vim atrás da minha mãe. Ela disse que vinha para cá. Nunca encontrei. Tenho a foto dela dentro de mim’’.

O segredo do Santa Clara é o mesmo da OAF: é o jeito de família.

O Santa Clara tem menos recursos. Depende de convênio com o governo estadual, de caridade da vizinhança, de parcerias com organizações não-governamentais. É assim na maioria dos abrigos brasileiros.

A OAF é exceção. É quase auto-sustentável. Produz 80% dos seus recursos porque mantém fábricas de uniformes, de cadeiras escolares e gráfica.

Uma criança abrigada no Brasil custa em média entre R$ 350 e R$ 500 mensais. Na Itália, cuidar de uma criança que perdeu a família e o sorriso não sai por menos de R$ 1.500 mensais. Nos Estados Unidos o custo chega a R$ 2.000 Europeus e americanos conhecem os danos de crescer em abrigos. Vivem estudando o assunto para entender os problemas de seus órfãos. Lá são orfãos de verdade. Filhos da guerra sem pai nem mãe. Aqui são filhos da solidão e da espera. De um abandono que nunca acaba. São os nossos órfãos.

Não sou orfão. Sou esquecido na estação do trem. Fui pegar o trem com o meu pai, entrei e daí perguntei para ele, ‘‘pai posso ir lá beber água ali enquanto o trem não sai’’. Aí eu fui correndo. O trem foi embora. Eu fiquei. Fiquei três dias esperando. A polícia veio e me pegou. Não sei onde estava o trem. Nunca mais vi meu pai. O nome dele é João. Minha mãe eu nunca vi. Fiquei parado tanto tempo na estação, mas ele não voltou. Você acha que eu devia esperar mais ? Que eu vou ter pai de novo?
Tiago, 16 anos