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Passado de violência PDF Imprimir E-mail

" Minha mãe vendeu meu corpo para um gringo por muito dinheiro. Aí eu fugi de casa porque minha mãe me maltratava, me queimava de cigarro. O nome do gringo é Fred. Ele é um velho. Ele me pegou à força, amarrou a minha mão e mexeu comigo. O gringo mexeu comigo. Eu tinha 10 anos. Ele mexeu comigo. Eu era mulher dele. Foi lá em Prazeres, é um bairro daqui do Recife. Ele é holandês. Ele dava em mim, nas minhas costas, até hoje eu tenho uns problemas no coração. Minha mãe me queimava de cigarro quando bebia. Fazia isso até boa. Ela dizia que me desprezava desde pequena. Não sei por que ela me desprezava. Não gosto da minha mãe nem um pouco. Do meu pai eu gosto. Ele está no interior. Eu já vi ele várias vezes. Ele morou com a minha mãe, mas não casaram, não. Eu tenho quatro irmãos. Eles não estão aqui, não. Só eu vim para o orfanato. Só eu fugi de casa. Fugi quando minha mãe disse que se eu saísse da casa do gringo ela ia torar, quebrar, minha duas pernas. Não queria ficar com minha mãe, não. Ela me obrigava a ir todos os dias para a casa do gringo. Ele abusou de mim. Ele fez sexo e doeu. Eu gritei. Ele tampou minha boca para eu não gritar. Assim os vizinhos não escutavam nada. Era na casa dele. Ele me pegou à força, eu não agüentei porque eu não agüento com homem. Ele fazia isso direto comigo. Não sei o que minha mãe fazia com esse dinheiro. Eu disse: ‘‘mãe, eu não quero ficar aqui não, não agüento mais esses dias aqui, não quero ficar aqui, mãe. Ou a senhora deixa eu sair daqui ou eu entrego a senhora para a polícia e vai ser pior para a senhora’’. Um dia o gringo falou que era para eu dormir lá na casa dele. Eu dormi, depois peguei o dinheiro da passagem e fugi. Não fui para a minha casa. Minha mãe nunca veio me visitar. No dia que ela vier me visitar eu me tranco no quarto. Não quero ver ela não. Do jeito que ela me despreza, eu desprezo ela mais ainda. Até o resto da vida. "

Vanessa, 13 anos. Casa da Criança, Recife

A violência é o prefácio. Toda criança, grande ou pequena, chega ao orfanato com uma história violenta para contar. De estupro, de surra, de morte, de negligência. Quatro tragédias que empurram meninos e meninas para abrigos de todo o país.

Eles correm para o gravador. Falta privacidade para a conversa. Orfanatos são diferentes de casas. Não há cantos nem refúgios. Os quartos são coletivos e ficam trancados durante o dia. Os armários também.

Tudo é de todo mundo. Camisetas, calcinhas, cuecas e brinquedos. Só o passado é particular e para falar dele as crianças se enfileiram. Se impressionam ao ouvir a própria voz. Ora cheia de ódio, ora resignada.

Há meninas que murmuram, chupam o dedo, não levantam o tom nem a cabeça. São as personagens de um mesmo drama: a violência sexual, a mais grave das barbaridades acolhidas nos orfanatos brasileiros.

Vanessa está em Recife. Aparecida em Porto Alegre. Dali em São Paulo. Manuela em Salvador. Não se conhecem, mas são irmãs no sofrimento. Foram agarradas, acariciadas, espancadas e estupradas dentro de casa. Tiveram a inocência roubada por aqueles que deveriam protegê-las.

Todas as quatro meninas que desfiam suas vidas aqui nestas duas páginas eram menores de 12 anos quando serviram à perversão de um adulto. Todas foram violadas mais de uma vez. Nenhuma tinha seios nem pêlos. Sequer haviam menstruado. Não são exceção.

Estudo da Fundação Oswaldo Cruz, do Rio de Janeiro, mostra que 70% das crianças abusadas passam pela violência antes dos nove anos de idade. Dessas, 73% foram usadas pelo pai, padrasto ou irmão. É um crime sem classe – moral e social. Castiga pobres e ricos. A diferença é que o filho do rico não termina em abrigo.

Nas 35 instituições visitadas, Michele e Raquel foram as únicas crianças de classe média encontradas. Michele era um bebê de oito meses quando chegou ao Lar Bom Caminho, em Curitiba, com o ânus perfurado pelas atrocidades cometidas pelo pai, um jornalista. Ele segue solto. Também não está atrás das grades o advogado carioca que obrigava a filha Raquel, hoje com 14 anos, a fazer sexo oral.

O mais alarmante é que sentir prazer com a própria filha, enteada ou irmã não é uma doença rara no Brasil. O Ministério da Justiça recebe por ano mais de 50 mil denúncias de abuso sexual contra crianças. Os especialistas calculam que o número corresponda a apenas 10% da realidade. Os outros 90% permanecem como um segredo entre quatro paredes. Não chegam aos ouvidos das autoridades.

A pernambucana Vanessa ameaçou delatar a mãe para a polícia, mas não teve coragem. Fugiu. Vive no abrigo estadual para adolescentes do Recife. Chama-se Casa da Criança e funciona numa antiga carceragem para menores infratores. Ali, encostada na mureta do pátio sem bancos, a menina, de rosto sardento e cabelo cacheado, destila seu rancor.

‘‘Não perdôo minha mãe’’, sentencia a garota magricela que sentiu o ódio brotar antes dos seios. É novata no abrigo. Chegou há dois meses e ainda não arrumou amigos nem recebe atendimento psicológico. Há duas psicólogas para os cem meninos e meninas da instituição. Fazem apenas terapia de grupo. ‘‘Só que eu tenho vergonha de falar na frente dos outros’’.

O constrangimento de Vanessa tem razão de ser. Se as feridas provocadas pelo abuso sexual são profundas e delicadas em adultos, que dirá numa criança que se percebe violada num conluio da própria mãe com o abusador. Vanessa teme sair à rua e encontrá-los. Os dois estão soltos. No Brasil, é assim: a criança é punida duas vezes. Perde a virgindade e a casa.

Aparecida perdeu também a vontade de viver. Tem 17 anos e já tentou se matar três vezes. Mora no Abrigo Juvenil Feminino, em Porto Alegre, um velho orfanato em fase de transição para o que os assistentes sociais chamam de casa-lar: um abrigo menor, para poucas crianças e que na teoria deveria ter jeito de casa. Aparecida sobrevive por sete anos no modelo antigo. Em tom infantil, conversa num degrau da escada. O alojamento está trancado.

A violência roubou as esperanças de garota. Tem certeza que jamais será amada. ‘‘Quem vai me querer bem? Nem meu pai me quis bem. Quem vai querer saber de ter uma menina como eu? Sou muito pesada’’, deprecia-se. O que ela chama de peso não tem nome. Aparecida carrega um baú de horrores.

Aos dez anos foi estuprada e espancada pelo pai e pelo cunhado ao mesmo tempo. Assistiu ao crime se repetir contra a irmã deficiente, uma paraplégica que ainda sofria de leucemia. Conseguiu fugir com a irmã, a maninha, como diz até hoje. A mais frágil não resistiu e morreu. Aparecida se desesperou, mas não denunciou os familiares. Retornou para casa e outra vez foi arremessada para a cama.

Foi salva por um médico que a atendeu num hospital da rede pública com a vagina dilacerada. De lá, com 11 anos, Aparecida partiu para o abrigo. O abuso detonou sua a saúde. Virou uma deficiente mental, sofre da síndrome de estresse pós-traumático. É uma doença típica de quem passou por agressões excessivas. O resultado é uma completa desilusão diante da vida. Aparecida sabe que não será adotada, que o tempo e o estupro lhe roubaram todas as chances.

Este é um dos problemas mais graves das meninas violentadas. Chegam aos abrigos com idade média superior aos sete anos. Não são bebês cor-de-rosa e com toda uma história em branco, pronta para ser escrita. Pertencem ao grupo que os setores de adoção das Varas de Infância chamam de ‘‘fora da faixa’’. Ou seja: estão velhas demais, problemáticas demais. Ninguém quer levá-las para casa. A rejeição se multiplica.

‘‘Nunca vi um casal adotar uma garota violentada. O preconceito ainda pesa muito’’, diz Alice Duarte Bittencourt, coordenadora da organização não governamental Amigos de Lucas, de Porto Alegre, dedicada a estimular a adoção de quem mais amarga nos abrigos: as crianças mais velhas e as doentes. ‘‘A responsabilidade não é apenas dos casais. As assistentes sociais sequer falam que existem essas meninas disponíveis para adotar’’, diz Alice.

Aparecida ficou sem família adotiva, sem família biológica e sem perspectivas. Nunca recebeu visita de qualquer parente. Jamais conseguiu contar sua vida em detalhes para uma psicóloga. “Sempre que eu me acostumava com uma, ela mudava’’, diz. Encontrou sozinha a solução para seu destino. Só pensa em morte.