Home Reflita
Os órfãos do Brasil PDF Imprimir E-mail
Escrito por Ana Beatriz Magno e Érica Montenegro   

Eles são 200 mil brasileiros. A maioria tem mais de quatro anos de idade. Todos têm menos de 19. Nenhum mora em casa. Nenhum mora na rua. Estão escondidos em orfanatos espalhados por todo o país. Ninguém os conhece porque não incomodam. Não fazem rebeliões nem suplicam esmolas. São personagens invisíveis de uma história jamais contada.

Os órfãos brasileiros são órfãos de pais vivos. Homens e mulheres que maltrataram os filhos porque também já foram maltratados. Pela miséria, pelo desemprego e pela doença. Deixam seus meninos com a promessa de voltar, mas nunca retornam. Cerca de 40% das famílias, jamais apareceu na insitituição.

Nas próximas sete páginas, o leitor será apresentado a esses meninos e meninas. Sentirá asco, raiva e vergonha. Conhecerá a agonia de crianças e adolescentes solitários que choram escondidos de saudades de quem os largou. A mãe que espancou, o pai que estuprou, a família que abandonou.
A equipe do Correio acompanhou a Caravana da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara Federal por abrigos de oito estados, mais Distrito Federal. Duas repórteres e dois fotógrafos visitaram 36 instituições durante 25 dias. Gastaram cem filmes e gravaram 24 fitas cassetes com os depoimentos de 88 meninos e meninas de várias idades.

Quem conduz o roteiro da reportagem são eles: os órfãos do Brasil. Contam dores do corpo e da alma. Falam de surras do passado e de dúvidas do futuro. Os relatos estão reproduzidos da forma como foram contados. Têm erros de português, lapsos de memória e pedaços que parecem sem lógica. Não são falhas, são sintomas. A dificuldade de linguagem é a seqüela mais perceptível entre as muitas que carregam.

Orfanatos são piores que prisões. Quem está numa cela cometeu um crime. Cada dia que passa é um dia a menos de pena. Criança de abrigo é vítima. Cada milímetro que cresce, cada noite que atravessa, as chances de voltar a encontrar uma família de verdade diminuem.

A matemática da adoção também compromete um crescimento saudável. Menos de 10% dos brasileiros inscritos para adotar aceitam levar para casa um menino maior de cinco anos. No entanto, mais da metade das crianças já passou dos sete anos quando chega aos abrigos .

São crianças especiais, donas de uma carência imensa. Em cada abrigo percorrido, os garotos se penduravam na máquina de retratos, as garotas não largavam o gravador, como se precisassem com urgência montar um álbum de família que jamais tiveram.

A lei reza que o abrigo é um lugar provisório até que a família se recupere. Ou, que o pátrio poder seja retirado e a criança entregue para a adoção. É um processo moroso que termina com adolescentes filhos de ninguém.

O Estatuto da Criança determina que os abrigos tenham cara, tamanho e jeito de casa, mas o Brasil ainda não consegue cumprir a legislação promulgada há mais de uma década. Em menos de um mês de viagem, foram percorridos três séculos de modelos de assistência à infância. Os mais antigos são os orfanatões dos tempos coloniais, com freiras, beliches e disciplina. Persistem também instituições herdeiras da extinta Funabem, a Fundação Nacional do Bem Estar do Menor, criada pelo regime militar e que logo se transformou em berçário da criminalidade. As mais modernas são as que não parecem abrigo. As que não tem alojamento nem refeitório. Têm quarto , sala e afeto, mas esbarram na realidade. São lares de mentira.

A seguir, os órfãos do Brasil desabafam sua história em três tempos. Falam do passado de violência, do presente de abandono e do futuro de incertezas.


“A gente tá no abrigo porque nosso pai abusava de nós. Mexia em toda parte nossa. A gente ficava só de calcinha. Eu tinha sete anos, minha irmã oito e a outra, seis. Ele abusava e batia. Na mãe também.. Um dia ele pegou o pau de ferro e quebrou os dois braços da minha mãe. Eu não acredito que ele tá na cadeia. Da primeira vez que a gente veio para o abrigo, ele foi preso. A gente voltou para casa, só que ele voltou também. Começou tudo de novo. Foi assim: minha mãe fazia aquilo com ele, mas daí ela tava grávida, daí ele pediu para minha mãe fazer de novo. Ela não quis. Daí ele pediu para nós fazer com ele. Aí ele trancava a porta, aí ele começava, aí ele acabou, acabou com nós três, aí ele chamou a pequeninha, de 4 anos.”

Pamela, 9 anos

“Vim para o orfanato porque meu pai não quer mais saber de mim. Eu aprontei muito, ele não quer mais saber de mim. Eu já usei droga. Eu tinha medo de apanhar do pai. Ele batia, dava no pau mesmo. Já quebrou o corpo da minha mãe. Me batia com couro, corda, com pau. Era meu pai adotivo. Me registrou. Meus pais de verdade eu nem sei se existem. A mãe adotiva disse que nunca gostou mesmo de mim. Na minha cara, ela fala que nunca gostou de mim. O pai adotivo desistiu de mim há pouco tempo. Ele pensava que eu ia ser alguém na vida, doutor essas coisas. Não fui o que ele quis. Ele não faz muito carinho. Minha mãe já me deu um beijo. Foi na bochecha, quando eu fui dormir. Meu pai nunca me deu beijo.”
Leonardo, 16 anos

“Estou aqui porque minha mãe não me quer. Não sei quem é o meu pai, o nome dele nem tá no meu document.o. Nem minha vó sabe o nome dele. Eu queria uma família nova. Sei que se eu ficar aqui até os meus 18 anos eu não arrumo mais. Não vou ter meu futuro construído. Tenho esperança de ser adotada. A maioria dos pais quer adotar meninos pequenos, de cinco para baixo. Menininho assim, bebê. Eles vão crescer e vão pensar que são o próprio filho deles. Aqui no orfanato é ruim porque às vezes eu fico no canto e fico pensando na minha vida, me dá uma vontade de ir embora. Os dias mais alegres aqui são os dias de aniversário, a gente taca ovo nos meninos. Os dias tristes são quase todos os outros.’’

Monica, 14 anos

“Minha mãe me deixou aqui. De noite eu penso nela, quero que ela me leve para casa. Quero ficar pertinho da minha mãe. Antes de eu vir para cá a gente sempre brincava. Daí eu vim para cá não deu mais para a gente brincar. Eu nunca mais abracei ela. Não quero mais morar aqui no abrigo porque esses meninos me batem. Esses meninos maiores aqui deste quarto me batem se eu não emprestar a minha bola. Eles me dão murros, me chutam, me xingam de um monte de palavrão. Minha mãe mora no Pedregal. Ela me tratava bem. Ela me batia mais ou menos. Meu pai não mora com a minha mãe. Ele saiu de casa para beber. Não vou embora porque minha mãe não vem me buscar.”

Wagner, 7 anos

Fonte: Correio Braziliense, 09/01/2012