Home Família Acolhedora
Família acolhedora é alternativa aos ultrapassados orfanatos PDF Imprimir E-mail
Escrito por Simone Iwasso   

Em vez de ir para o abrigo, crianças afastadas dos pais por algum problema ficam durante certo tempo em ambiente familiar

Famílias biológicas, adotivas, separadas, tradicionais e modernas convivem agora com um novo modelo de maternidade e paternidade: as famílias acolhedoras. Provisórias, com prazo predeterminado, mediadas pela Justiça e que não aceitam, por norma, nenhuma mentira sobre o vínculo afetivo que as une, são constituídas por pessoas que se dispõem a receber dentro de casa crianças afastadas dos pais. Difundidas recentemente, já aparecem como alternativa para os abrigos e adoções em algumas cidades.

Normalmente, essas crianças e adolescentes - vítimas de maus-tratos, negligência, abusos sexuais, abandono e agressões - iriam para os abrigos, os antigos orfanatos. Lá ficariam até a Justiça decidir se poderiam voltar para casa ou ser postas para adoção. Com a proposta, elas têm a opção de ficar em um ambiente familiar, enquanto seus pais recebem apoio para se reestruturar.

"Sempre tive vontade de ajudar. Quando conheci o programa, falei para meu marido: 'É isso que quero fazer.' Aí começou nossa história", conta a dona de casa Ermelinda da Silva, de 46 anos, mãe de duas adolescentes, uma de 12 e outra de 19 anos. Depois do treinamento oferecido pelo Serviço Alternativo de Proteção Especial à Criança e ao Adolescente (Sapeca), da prefeitura de Campinas (interior de São Paulo), ela recebeu Bruno*, de 2 anos, que trazia como bagagem o olhar assustado, a carência e a falta da mãe, que já tinha outros três filhos num abrigo e tinha sumido por ter sido ameaçada de morte.

Ele chegou à casa e, segundo conta Ermelinda, "ocupou todo o lugar". Conquistou a família e permaneceu lá por cerca de um ano e meio, fazendo constantes visitas à mãe e aos irmãos. "É para sempre. É como filho. Tudo de que a família precisar, eles sabem que podem contar com a gente", diz o marido, Dorival Aparecido da Silva, de 49 anos, enquanto mostra o álbum de fotos e o poema escrito na hora da despedida. "A gente sofre, sente falta. Mas quando vê o outro lado, a mãe dele com condições de tê-lo de volta, vê que pôde fazer sua parte, que ajudou, se sente gratificado."

Hoje, a família abriga Carolina*, de 10 anos, portadora de diabete que, pela falta de cuidados e do abandono da mãe, acabou internada num hospital. Pela idade, o começo não foi fácil. "Fiquei com medo, achava que nunca mais ia ver minha mãe. Agora, sei que é por um tempo e estou bem", diz, procurando o colo da "tia". Ela aprende a cuidar da alimentação, freqüenta a escola do bairro, faz aulas de natação e balé. Mantém os cabelos longos, parte da religião evangélica. "Faz parte das regras manter a religião da família biológica", explica Ermelinda.

Junto com ela, outras 32 famílias são acolhedoras na cidade e recebem um salário mínimo por mês como subsídio. Todas passam por treinamento, o responsável deve ter mais de 24 anos e não ter processo judicial. Há também vovós acolhedoras, além de mulheres e homens solteiros no projeto.

Discussões

No Brasil, a modalidade, apesar de prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e na Política Nacional de Acolhimento Familiar, começou a ser difundida pela iniciativa conjunta de organizações não-governamentais, conselhos tutelares e juízes da Vara da Infância. No Estado, Santos, Diadema e Franca já têm programas. Rio, Santa Catarina e Rio Grande do Sul também puseram em prática a idéia, que colhe elogios, críticas e ceticismo.

"Não é solução para todos. Não vai substituir os abrigos. Mas é uma boa alternativa para alguns casos. Para crianças que ainda não passaram por abrigos, que têm famílias que podem se recuperar, que têm outros irmãos", afirma Cláudia Cabral, da Terra dos Homens, instituição parceira do programa carioca.

Para o juiz Reinaldo Cintra Torres de Carvalho, da Corregedoria-Geral da Justiça de São Paulo, desde que com acompanhamento de psicólogos, assistentes sociais e da própria Justiça, o acolhimento é positivo. "É uma idéia muito nova no Brasil. Vemos famílias acolhedoras boas e ruins, o que mostra a necessidade de capacitação e seriedade." Para ele, quando a família não tem perspectivas de se recuperar ou a criança já passou por muitos abandonos, o abrigo aparece como melhor destino.