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De braços bem abertos PDF Imprimir E-mail
Escrito por Paloma Cotes   

Famílias acolhedoras” são uma alternativa pouco conhecida aos abrigos, onde milhares de crianças e adolescentes crescem longe de seus pais

O primeiro acolhimento

familia'Estávamos cansados de doar dinheiro para instituições de caridade. Mas também não queríamos adotar uma criança. E o programa de acolhimento veio ao encontro dos nossos desejos. O João chegou em fevereiro de 2004 e tivemos de aprender a lidar com uma criança de novo. Depois, veio a Luciana. Para nós, o mais importante é saber que eles vão poder voltar para sua família daqui a um tempo. É claro que ficaremos com saudade, mas assim poderemos ajudar muito mais crianças e famílias'

Não fosse a disposição da família Silva em ajudar o próximo, João*, de 4 anos, e Luciana*, de 10, teriam o mesmo destino de milhares de crianças brasileiras: um orfanato. Os dois tiveram a oportunidade de ganhar um lar substituto, ao menos por um período provisório.Com isso, deixaram de engordar as estatísticas de crianças que acabam recolhidas a abrigos para escapar da violência doméstica ou da simples miséria.

Um levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que 87% das crianças que estão em instituições possuem família. Não são órfãs nem foram abandonadas. De cada dez delas, seis mantêm vínculos com pais, mães e responsáveis que as deixaram no abrigo. 'Esses números derrubam a crença de que todas as crianças podem ser adotadas. É preciso apostar mais no poder de recuperação das famílias', diz Claudia Cabral, da ONG Terra dos Homens. Com esse objetivo, foram criados, em algumas cidades do Brasil, programas em que famílias ficam com a guarda provisória de crianças enquanto os pais e as mães biológicos tentam reverter a situação em que vivem.

'Eu já ajudava instituições de caridade com dinheiro. Mas não achava que estava fazendo o suficiente', conta o funcionário público Dorival da Silva, de 49 anos. E foi essa insatisfação que fez ele e sua mulher, Ermelinda, procurar pelo Serviço Alternativo de Proteção Especial à Criança e ao Adolescente (Sapeca), programa de acolhimento familiar da prefeitura de Campinas (interior de São Paulo). Não foi preciso esperar muito para receber o primeiro telefonema. Em fevereiro de 2004, as assistentes sociais procuravam uma família acolhedora para João, de 2 anos. A mãe dele havia sido vítima de uma tentativa de assassinato. Nove meses depois, veio o pedido para um segundo acolhimento. Luciana tinha 8 anos, diabetes e não podia ficar em um abrigo, pois necessitava de cuidados especiais. E lá foram os Silvas arrumar a casa para receber mais uma criança. Nesse meio tempo, Camila, de 19 anos, e Beatriz, de 12, filhas biológicas do casal, acabaram perdendo um quarto. Mas ganharam dois irmãos, mesmo que provisoriamente.

maeparque'A gente brinca. Mas também briga', diz Camila.

Praticamente desconhecidas dos conselhos tutelares e do próprio Poder Judiciário, as famílias acolhedoras são uma alternativa prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Mais de 85% das crianças que estão em abrigos foram encaminhadas pelas Varas de Infância, que ainda preferem mandar meninos e meninas para orfanatos a dar-lhes um ambiente familiar provisório. Pela lei, cabe a cada município ou Estado desenvolver programas de famílias acolhedoras. E eles ainda são poucos no Brasil. Desde 1997, a cidade do Rio de Janeiro tem um projeto de acolhimento. Para fazer parte do programa carioca, basta ter entre 24 e 65 anos e não responder a processo judicial.

O tempo de acolhimento também varia entre os programas. Em Campinas, crianças com até 5 anos de idade podem ficar provisoriamente com a família por até um ano. As maiores de 5 anos, por no máximo 20 meses. As famílias que se dispõem a entrar no programa são avaliadas por assistentes sociais e psicólogos. Além do acolhimento, os programas monitoram o retorno das crianças para as famílias biológicas por um período que varia de um a cinco anos. Quem acolhe recebe uma bolsa-auxílio dos governos, que varia de R$ 150 a um salário mínimo.

E como fica o coração daqueles que abriram as portas de casa para uma nova criança que, meses depois, vai embora? Aos 41 anos, Denise Hesketh de Brito já acolheu 23 crianças e adolescentes. 'Nem dá muito tempo de chorar porque, quando um vai embora, já chega outro', brinca ela. Mas a saudade dá lugar, na maioria dos casos, a grandes amizades. Para facilitar o retorno das crianças, as famílias se encontram periodicamente e acabam trocando experiências. Jaqueline*, mãe de João, ficou amedrontada quando soube que seu filho estava nos braços de outra família. Mas com o tempo percebeu que era a melhor alternativa e usou o período em que esteve longe do filho para reordenar a vida. Alugou uma casa, arrumou um emprego e entendeu o verdadeiro significado da maternidade. 'Hoje, eles também são minha família', diz Jaqueline.

23 Acolhimentos

familiareunida'Começamos a acolher em 1997. De lá para cá, passaram pela nossa casa 23 crianças e adolescentes. Duas delas, acabamos adotando. É uma experiência maravilhosa. Minha casa é uma festa. Já cheguei a receber cinco crianças ao mesmo tempo. Fico triste quando elas vão embora, mas nem dá tempo de chorar porque logo a assistente social manda outra. Mantenho contato com todos que ficaram aqui. Alguns até passam as férias comigo. Com isso, todos acabam ganhando uma nova família'

* Os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados e de suas famílias

Eles têm Família

Nove de cada dez crianças em abrigos não podem ser adotadas porque têm família - em %

Do Total de Crianças...

Têm família - 87
Não têm família ou ela está desaparecida - 11-3

Das Crianças que tem família...

Mantêm vínculos - 58,2
Não mantêm vínculos - 22,7
Não podem manter contato por impedimento judicial - 5,8

Fonte: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) 'O Direito à Convivência Familiar e Comunitária: Os Abrigos para Crianças e Adolescentes no Brasil', Enid Rocha Andrade da Silva

Infância Sem Lar

Razões para viver em abrigo (em %). Na maioria dos casos, inclusive nos de órfãos, seria possível - e preferível - ficar com uma família acolhedora

Carência de recursos materiais - 24,1
Abandono pelos pais ou responsáveis - 18,8
Prisão dos pais ou responsáveis - 3,5
Violência doméstica - 11,6
Orfandade - 5,2
Dependência química dos pais ou responsáveis - 11,3
Vivência de rua - 7
Abuso sexual praticado por pais ou responsáveis - 3,3
Outros motivos - 15

Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Epoca Edição 383 – 19/09/05